Bife de laboratório? Avanços e desafios da produção de carne cultivada

O processo convencional de produção de carne já é considerado pouco eficiente diante da demanda, devido ao aumento do consumo de carne em diversas regiões do mundo, somado ao expressivo crescimento da população mundial nas últimas décadas. De acordo com as pesquisas, 76,1 toneladas de frango foram consumidas no total em 2023, o que representa quase 90% de aumento na quantidade consumida em comparação com 2003. Para as carnes em geral, o aumento ao longo dessas duas décadas foi de cerca de 50%, ultrapassando a marca de 366,7 toneladas de carne consumidas no mundo.

Além disso, os impactos ambientais da produção de carnes, como a alta liberação de gases de efeito estufa, a ocupação em larga escala de terras (o que, por sua vez, acelera o desmatamento e a perda da biodiversidade), o alto consumo de água e a degradação do solo, são desafios cada vez mais urgentes.

Uma das alternativas nesse cenário, entre outras, é a carne cultivada em laboratório. Funciona da seguinte maneira: uma porção de tecido animal é retirada por biópsia, sem causar a morte do animal, e esta é cultivada em laboratório, onde é mantida em condições adequadas para a multiplicação das células que formam o tecido.

O primeiro insumo importante no cultivo de células é o meio de cultura, que também representa um gargalo nesse tipo de produção. O meio de cultura comumente utilizado na cultura celular deriva de soro de origem animal, geralmente do soro fetal bovino, extraído do sangue de fetos de vacas abatidas durante a gestação. Esse componente recebe suplementos de origem animal, como transferrina, albumina e fatores de crescimento. Além do alto risco de contaminação durante o cultivo, o custo desse material é elevado, o que impacta o preço final da carne produzida in vitro, além de esbarrar em questões éticas relacionadas ao bem-estar animal.

Em segundo lugar, há necessidade de um controle rigoroso para o crescimento das células que formam o tecido animal. Assim, é um tipo de produção dependente de biorreatores que consomem uma quantidade significativa de energia e que também necessita de profissionais altamente qualificados, o que aumenta o preço final do produto.

Portanto, hoje, há enfoque no desenvolvimento de meios de cultura derivados de vegetais e/ou fungos, a fim de diminuir os custos e fomentar produtos que não envolvam sofrimento animal, além do desenvolvimento tecnológico para a produção de carnes com textura e sabor mais semelhantes aos das carnes convencionais, assim como de estratégias mais ecológicas. Além disso, há ainda lacunas sobre a segurança do consumo desse tipo de carne e, consequentemente, sobre sua aceitação pela clientela.

Apesar disso, em alguns países, a comercialização de carne cultivada em laboratório já é uma realidade, embora sob regulamentos rigorosos e de forma bastante limitada.

E aí? Você experimentaria uma carne cultivada em laboratório?

 

REFERÊNCIAS

DESTATIS. Global animal farming, meat production and meat consumption. 2026. Disponível em: https://www.destatis.de/EN/Themes/Countries-Regions/International-Statistics/Data-Topic/AgricultureForestryFisheries/livestock_meat.html. Acesso em: 06 jul. 2026.

GONÇALVES, Érica Ramos et al. Produção da carne in vitro. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.9, n.5, p. 15337-15348, mai. 2023. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/370584666_Producao_da_carne_in_vitroem. Acesso em: 05 jul. 2026.

KUMAR, Pavan et al. Recent advances in in-vitro meat production – a review. Annals of Animal Science, v. 24, n. 2, p. 393–411, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.2478/aoas-2023-0061. Acesso em: 05 jul. 2026.

 

 

Por: Natsumi Mizogami

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